O Estado português adquiriu, em leilão, o Retrato de Maria Amália de Habsburgo, Arquiduquesa de Áustria, Duquesa de Parma (1746–1804), de Francisco Vieira, o Portuense, assegurando a sua integração na coleção do Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR).
A aquisição da pintura de Vieira Portuense, pelo valor de 40 mil euros, foi decidida no quadro das competências da Comissão para a Aquisição de Bens Culturais para os Museus e Palácios Nacionais, reforçando o património público nacional e contribuindo para a preservação e valorização de uma das mais relevantes produções da arte portuguesa.
Datada de 1795, a pintura foi realizada durante a permanência de Vieira Portuense em Parma, entre 1793 e 1796, num momento decisivo da sua formação e afirmação internacional. O retrato constitui um testemunho particularmente expressivo da capacidade do artista para assimilar diferentes tradições da pintura europeia e desenvolver uma linguagem própria no domínio do retrato.
A representação de Maria Amália ultrapassa a dimensão convencional do retrato de corte. Aos 49 anos, a Duquesa de Parma surge em traje de caça, segurando uma espingarda e um delicado chapéu, numa composição que articula poder e informalidade, autoridade e feminilidade. Esta escolha inscreve-se numa tradição da retratística europeia que associava a representação feminina em traje de caça a ideias de poder, autonomia e carácter.
A qualidade da pintura revela o domínio de Vieira Portuense sobre a tradição do retrato europeu. O cuidado colocado na representação dos tecidos, rendas e fitas, associado à construção cenográfica da figura diante de uma paisagem profunda e sombria, aproxima a obra do gosto neoclássico e da tradição inglesa do Grand Manner, associada a artistas como Joshua Reynolds, que Vieira conheceu durante a sua passagem por Londres.
Uma obra que regressa ao MNSR
A aquisição da Duquesa de Parma acrescenta ao acervo do Museu uma obra particularmente relevante para o conhecimento da produção de Vieira Portuense e para a compreensão do papel desempenhado pelo artista na renovação da pintura portuguesa na transição para o século XIX.
A pintura foi apresentada no MNSR em 2001, na exposição Francisco Vieira, o Portuense (1765–1805), encontrando-se reproduzida no respetivo catálogo. Vinte e cinco anos depois, regressa ao Museu, agora para integrar definitivamente o seu acervo.
Nascido no Porto, em 1765, Vieira Portuense estudou em Roma, permaneceu em Parma entre 1793 e 1796 e passou posteriormente pela Alemanha e Inglaterra, onde expôs na Royal Academy of Arts, em Londres, em 1798 e 1799. A sua morte prematura, no Porto, em 1805, aos 39 anos, interrompeu uma carreira em plena afirmação.
No Museu Nacional Soares dos Reis, Vieira Portuense ocupa já um lugar de relevo na Exposição de Longa Duração, nomeadamente através da monumental Fuga de Margarida de Anjou, de 1798. A entrada da Duquesa de Parma reforça, assim, as coleções do Museu e recupera para o património público português uma obra que testemunha a dimensão europeia da carreira do artista.

